Estrada Viva - Liga contra o Trauma
Caderno Reivindicativo para a Sinistralidade Rodoviária
Considerando que:
- Portugal
se encontra lamentavelmente no topo das estatísticas internacionais
relativamente ao número de feridos, mortos e incapacitados temporários
e permanentes, por acidentes rodoviários.
- Em Portugal,
ao momento, a abordagem e tratamento médico do traumatizado encontra
deficiências graves, deficiências sempre em prejuízo directo
do doente, e indirectamente da sociedade, resultando num aumento da morbilidade
e da mortalidade.
- A prevenção
do acidente e da lesão se faz essencialmente a nível nacional,
não valorizando a incidência específica de cada área
geográfica, tipo e mecanismo de lesão.
- O sistema
de emergência pré-hospitalar não é equitativo a
nível nacional e como tal injusto socialmente.
- Nos hospitais,
mesmo nos centrais, não existem equipas com preparação
específica para o trauma. Esta falta de preparação é
responsável pelo não estabelecimento de prioridades, atrasos
e repetições de exames de diagnóstico, e por vezes a
atrasos irremediáveis de tratamento.
- Os atrasos
de cuidados de reabilitação são responsáveis pelo
aumento do tempo de recuperação, interferindo no tratamento
dos doentes, podendo tornar lesões recuperáveis em lesões
definitivas. Estas deficiências de organização, coordenação,
formação e metodologia de intervenção clínica,
são responsáveis por um aumento da morbilidade e da mortalidade
dos doentes vítimas de lesões graves.
- O "Trauma",
também afecta os que ficam, depois de perderem os entes queridos, os
que acompanham os entes queridos sobreviventes de acidentes, e os que de alguma
forma contactam com esta dura realidade, trauma que por não ser fisicamente
visível passa, na maioria dos casos, praticamente desapercebido, sendo
uma das causas do elevadíssimo número de pessoas com depressão
que enchem diariamente os centros de saúde, com o consequente absentismo
ao trabalho e correspondentes gastos que isso acarreta ao país.
- As regras
do segredo de justiça, aplicáveis aos acidentes de estrada,
e a demora da resolução dos processos, prejudica as vítimas,
e no caso de vítimas mortais prejudica a realização do
luto pelos familiares directos.
- O actual
quadro institucional, baseado na Administração Interna, não
é efectivo, não atende às características do problema
como epidemia social e como um problema grave de saúde pública;
e que não contempla programas de investigação nem de
formação dos cidadãos e programas específicos
dirigidos aos grupos mais vulneráveis e susceptíveis, e que
do ponto de vista de intervenção social, não tem contribuído
para o envolvimento da sociedade em geral e para uma eficaz integração
na agenda política da segurança rodoviária. Este problema
reclama soluções urgentes, e uma revisão das Estratégias,
Planos e demais intervenções no que se refere à sinistralidade
rodoviária no nosso País, por forma a que não continuemos
a ter este fardo de vítimas da Estrada, em que tantos perdem a vida
ou ficam marcados física e psicologicamente, amputados do direito a
um futuro digno, e o País banhado em sofrimento e doença.
- E, por
que não podemos ficar indiferentes, Associações e Individualidades
aderiram à Estrada Viva - Liga contra o Trauma, promovendo como primeira
iniciativa a Comemoração deste Dia Mundial em Memória
das Vítimas da Estrada.
E, precisamente por memória dessas vítimas entendemos
equacionar sob a forma de caderno reivindicativo, o seguinte conjunto de medidas,
sistematizadas a diversos níveis:
Estrutural
- Reconhecer
a segurança rodoviária como um importante problema de saúde
pública, para a resolução do qual todos podemos dar um
contributo;
- O sector
da saúde deverá assumir um papel preponderante na investigação
das causas e combate à sinistralidade, tendo em consideração
a caracterização da sinistralidade rodoviária pela Organização
Mundial de Saúde e Comissão Europeia como um grave problema
de saúde pública;
- O governo
deverá criar um organismo autónomo dedicado exclusivamente à
investigação, prevenção e coordenação
das actividades de segurança rodoviária. Rever urgentemente
o ordenamento territorial das diferentes redes de referenciação,
das instituições sociais, judiciais e da saúde, concertado
com o ordenamento administrativo, num quadro de integração e
eficácia, e de minimização de custos para a população;
- Rever
o sistema de emergência pré-hospitalar, de forma a torná-lo
equitativo, socialmente justo e eficaz;
- Redefinir
as práticas da medicina de emergência, assim como a integração
das várias áreas que nelas se encontram implicadas, nomeadamente
a área da saúde mental;
- Criação
de uma rede de trauma - Sistema Integrado de Cuidados em Trauma;
- Integrar
nos planos de prevenção do acidente e da lesão a incidência
específica de cada área geográfica, tipo e mecanismo
de lesão;
- Promover
a criação de Gabinetes de Crise Municipal, com intervenção
na sinistralidade rodoviária, e no apoio às vítimas;
- Criação
de carta comum das organizações promotoras de segurança
rodoviária;
- Reequacionar
a comunicação sobre os aspectos relacionados com os acidentes;
- Flexibilizar
os processos formativos e de avaliação escolar das vítimas
de acidentes rodoviários, durante o período de reabilitação,
nomeadamente, através do recurso à Internet e outras tecnologias
de informação e comunicação;
- Promover
o desenvolvimento de um Plano morte zero;
- Integração
da problemática da segurança rodoviária nos programas
eleitorais dos partidos políticos e promoção de compromisso
eleitoral.
Legislativo
- Criação
de quadro penal e/ou cível de penalização do crime rodoviário
aplicável a técnicos e políticos que por omissão
ou acção ponham objectivamente em perigo a vida dos utentes
das vias rodoviárias;
- Revisão
do segredo de justiça, no âmbito dos acidentes rodoviários;
- Co-responsabilização
do Instituto de Estradas de Portugal, na medida em que as estruturas viárias
e as respectivas sinaléticas constituem, objectivamente, factores adjuvantes
da sinistralidade;
- Carta
dos direitos da pessoa traumatizada;
- Carta
dos direitos do peão;
- Definição
de responsabilidades quanto aos aspectos comunicacionais entre as vítimas,
as famílias das vítimas e o Estado, representado pelos diversos
poderes centrais e locais e pelas autoridades policiais, judiciais e de saúde.
Educação/formação:
Geral
- Integrar
nos programas de formação contínua dos diferentes sectores
da administração módulos específicos sobre Segurança
Rodoviária;
- Criar
Curso Superior de Técnico de Segurança Rodoviária, para
dotar o País com um corpo de técnicos, cientificamente preparados;
- Rever
os pressupostos formativos da instrução de condução,
e os pressupostos técnicos do exame de condução. Melhorar
o nível técnico dos examinadores em matérias como ergonomia,
aprendizagem perceptivo-motora, traumatologia, prevenção rodoviária,
técnicas de condução defensiva e condução
avançada;
- Criar
um programa nacional de aperfeiçoamento de condução segundo
metodologia de condução proactiva.
Sectorial
Dos
profissionais das Forças Paramilitares
- Promover
a formação em estratégias e técnicas de segurança,
boas práticas europeias e medidas de fiscalização dissuasoras
e pedagógicas, dos agentes fiscalizadores da PSP e GNR;
- Promover
o conhecimento e a cooperação com congéneres de países
com baixa sinistralidade;
- Participação
dos agentes destas duas forças policiais em acções de
formação prestadas por entidades exteriores, preferivelmente
do ensino superior.
Dos
profissionais de saúde
- Promover
plano de formação adequado, específico às competências
que lhes são atribuídas, e às necessidades deste problema,
em especial urgência na área do trauma físico e psicológico;
- Integrar
nos programas de formação contínua dos diferentes grupos
profissionais módulos específicos sobre Segurança Rodoviária,
e sobre comunicação do risco e aspectos psicológicos
do trauma.
Dos
profissionais de educação
- Implementar
programa nacional de formação de educadores de infância
e de professores, sobre sinistralidade rodoviária e sobre instrumentos
de comunicação e pedagógicos adequados aos diferentes
níveis de ensino e faixas etárias dos alunos;
- Criação
de kits pedagógicos para professores e alunos, fazendo da segurança
rodoviária um tema abordado transversalmente e ao longo do ano lectivo,
contribuindo assim decisivamente para a criação de uma cultura
de segurança;
- Criar
práticas institucionais de convívio nas escolas, onde o tema
da sinistralidade rodoviária possa ser discutido, aferido e tornado
em área vital de intervenção ao nível da cidadania.
Dos
profissionais de comunicação
- Integrar
nos programas de formação módulos específicos
sobre Segurança Rodoviária, e sobre a abordagem deste problema
e a comunicação do risco.
Investigação
- Levar
a cabo, com urgência, estudos de análise epidemiológica,
de repercussão económica e social sobre os acidentes rodoviários
e promover sobre os mesmos ampla discussão e informação
pública;
- Desenvolver
estudo sobre pontos brancos nas estradas portuguesas – como princípio
orientador de boas práticas na construção e gestão
das redes viárias.
Sancionatório
- Adopção
pelos comandos da PSP e GNR, bem como pelas associações profissionais
da polícia e da guarda, do papel fundamental da imposição
da lei, no cumprimento das regras de trânsito em geral, da sinalização
e do estacionamento em particular, e de falhas de protecção
passiva;
- Reforço
da fiscalização de eventos comunitários, e adopção
efectiva de medidas contra as infracções e comportamentos de
risco.
Sistemas
de informação
- Desenvolver
o Programa informático Sinais de Vida – de participação
dos cidadãos na melhoria das condições de segurança
na estrutura viária;
- Criar
um registo nacional de trauma;
- Modificar
o procedimento de recolha estatística dos “acidentes”,
através da introdução de um número único
de ocorrência que acompanhe a vítima desde o local do sinistro
até (pelo menos) 30 dias posteriores. Trata-se da aplicação
da convenção UN/ECE Geneva 1995 - Statistics of Road Traffic
Accidents in Europe and North America, annex1, em vigor na grande maioria
dos países europeus e da América do Norte, por forma a avaliar
correctamente o número de vítimas em Portugal.
Informação
- Divulgar
os dados estatísticos completos e discriminados acerca das operações
policiais, nomeadamente sobre as multas por excesso de velocidade, em que
além de quantas infracções é necessário
saber a que velocidades e, sobretudo, onde. Dessa forma poder-se-á
saber se as acusações de "caça à multa"
têm algum fundamento;
- Promover
a realização de Campanhas de segurança não genéricas,
não abstractas, com apelos a noções vagas de “prudência
ou consciência”, mas baseadas na identificação clara
de comportamentos de risco e na proposta objectiva de comportamentos/actuações
de segurança;
- Colocar
sobre pressão as imagens publicitárias e outras que possam,
directa ou indirectamente, induzir ao culto irresponsável da velocidade.
Ambiental
- Rever
integral e urgentemente toda a sinalização do país, horizontal
e vertical, resolvendo o caos em espaço urbano e nos diferentes tipos
de Estradas;
- Criar
condições para a circulação segura dos peões;
- Assunção
pelos responsáveis máximos pelos pelouros do trânsito
das autarquias da observação dos problemas no terreno, de forma
sistemática e rigorosa, com frequência adequada e deslocando-se
quer em viaturas, quer a pé;
- Eliminação
definitiva das botoneiras desactivadas das passagens de peões;
- Substituição
faseada de todas as botoneiras existentes por botoneiras com "feedback"
para os peões, que devem sempre saber que o sistema lhes reagiu;
- Revisão
da localização de passadeiras, adoptando o princípio
de que nos locais onde há mais passagens ilegais de peões se
deve preferencialmente colocar uma nova passadeira ou, caso isso seja impossível
de fazer em segurança, colocar barreiras físicas que os impeçam
de atravessar;
- Criar
Dispositivos de Avaliação e de Manuais de Procedimento, baseados
nas boas práticas de outros países europeus, para a projecção,
construção e manutenção de vias e dispositivos
de segurança rodoviária.
Pelo que se apela:
A Sua Excelência o Presidente da República, o Presidente do Conselho
de Ministros e à Assembleia da República, assim como a todos os
Dirigentes da Administração Pública para que tomem as iniciativas
conducentes a que estas medidas sejam implementadas no mais curto espaço
de tempo.
Aos homens e mulheres, para que se através de uma mobilização
social, se crie um compromisso social para que a guerra civil das Estradas termine,
de forma a garantir o futuro dos nossos filhos.
E, também
de forma muito especial aos jovens deste País, acreditamos que o Vosso
Futuro é possível, mas sabemos que ele depende também da
Vossa vontade em o construir, e não queremos que ele seja ceifado por
acidentes da estrada, que podem ser evitáveis. Apelamos que se envolvam
na especial tarefa de protecção da vossa vida e da vossa saúde
como da vida e saúde dos outros.
Estrada
Viva - Liga contra o Trauma